Quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2014
HENRIQUE MONTEIRO E PEDRO ABRUNHOSA EM CONFLITO



Agradeço muito o trabalho a que Pedro Abrunhosa se deu para me responder, embora a sua resposta me chegasse através de uma advogada de uma das maiores sociedades de Portugal, a Abreu & Associados.

Abrunhosa não desmente o que eu disse. Pelo contrário, reforça-o. Eu não digo que seja grave o facto ele pensar assim (tem toda a liberdade de o fazer). Grave é não se entender que o pensamento de Abrunhosa é prejudicial à democracia. Em duas palavras, porque não tenho todo o espaço do mundo, o cantor e músico insiste que o "grande capital capturou" a democracia. Até aqui, embora possa discutir, não reagiria. O problema é que ele vai muito mais longe e diz que "o capital deixou de necessitar do processo democrático para fazer vingar" a sua agenda. E essa agenda, segundo Abrunhosa, não é democrática, na verdade compara-a à submisssão integral a interesses religiosos que se verifica em certas 'democracias islâmicas', parecendo desconhecer que nessas 'democracias' não há direitos universais - antes perseguições sobre minorias, ao contrário do que por cá se passa.

Ou seja, o voto popular não vale nada, pelo menos quando não agrada a Abrunhosa, ou não serve, ou não corresponde às suas expectativas. Poder-se-á argumentar que o voto está manietado, mas esse é um argumento fraco quando a regra é e tem sido a alternância no poder. Também se pode argumentar que o regime é mau, está podre, tem de ser reformado (eu defendo reformas e tenho dito em que sentido), mas a ser assim cabe a quem pensa desta forma e se pretende tão lúcido, apresentar pistas ou alternativas.

Vamos ver. Segundo o famoso cantor - e posso estar enganado - a democracia foi uma necessidade de o capital ter um processo de impor a sua agenda. É uma visão, mas com óculos muitos escuros, do processo democrático que nem sequer leva em conta os ideais iluministas. Pior é que mais à frente, o mesmo Abrunhosa diz textualmente "as democracias ocidentais sucumbiram a outras forças maiores". Presume-se que sucumbiram a forças maiores do que a do voto popular (e já agora as democracias não ocidentais, ou aquelas em que isso não terá acontecido, serão quais?). Ou, conhece Abrunhosa no 'ocidente' regimes, mesmo os indiscutivelmente maus, que não resultem da força do voto? E voltamos ao mesmo, se não é a força do voto popular que devemos levar em conta, porque esse voto é manipulado (que alternativa?). Qualquer das interpretações me parece pouco democrática, a atirar para aquele vanguardismo que diz: há aqui uma malta que sabe do que isto necessita e - esses sim - deveriam dispor disto. (Num parêntesis peço que não me recordem que Hitler ganhou eleições. É verdade, mas o seu poder absoluto firmou-se depois de um golpe ilegítimo e inconstitucional. O mesmo aconteceu noutras paragens, mas não, por enquanto, em qualquer democracia ocidental).

Abrunhosa cita Krugman, Stiglittz e Sachs (mal) como na minha juventude se citava (mal) Marx e Engels. Tenho o maior respeito pelos pensadores, mas respeito mais ainda a realidade. E a realidade, do meu ponto de vista - que não é para indispor Abrunhosa, mas por corresponder ao facto de não estar (ao contrário do que diz, no "confortozinho de um gabinete", mas ter visto miséria por todo o mundo e em Portugal) - é esta, que escrevi e a que o meu contraditor foge de responder:

A) Em termos históricos, e apesar da crise que nos vem de 2008, estamos no período em que melhor se viveu em Portugal. E com menos desigualdade. Eu sei que isto choca, mas a História é chocante, salvo para quem se lembra de crianças descalças e de socos a pisar ruas de neve e geada, rapazes de remendos e fundilhos nas calças a dormir tapados por jornais, porque as mantas escasseavam, enquanto pessoas como Abrunhosa ou eu vivíamos quentes e abrigados.

B) Em termos históricos, nunca houve tanta democracia e participação popular no conjunto dos países do mundo, ainda que haja todas as imperfeições que nos levariam a páginas e mais páginas de descrições horrendas. Para quem, como eu viu, dormiu e esteve em choças de campos de refugiados em África, a melhoria é visível a olho nu. Ainda esta semana em Cabo Verde constatei o desenvolvimento que por lá se sente em relação ao que era 20 ou 30 anos atrás.

C) Em termos históricos, e apesar das desigualdades terem aumentado no mundo, há menos pobreza do que em qualquer outra época. E isso deve-se - apesar dos arroubos de Abrunhosa - ao capital, aos mercados, à circulação, à mobilidade.

É isto, e não preconceitos, o que ponho em discussão. Caso quisesse entrar por caminhos, como os que entra Abrunhosa, de forma demasiado pessoal para quem não me conhece de lado nenhum e recorda o meu maoismo (que terminou há mais de 35 anos, tenho 57) apesar de sempre ter sido jornalista depois de ter abandonado qualquer organização dessas, poderia lembrar que ele foi a cara, a voz e a imagem da campanha do Millennium BCP quando o banco era dirigido por Paulo Teixeira Pinto (e não seria este banco e esta personagem um dos captores da democracia, segundo Abrunhosa, que alegre e seguramente de forma recompensada participou?)

Resta-me, para que todos vejam o que provocou o direito de resposta de Abrunhosa, fazer algo que ele, por esquecimento, inadvertência ou desconhecimento não fez: remeter este texto para o texto dele e para o meu original. Aqui (o dele) e aqui (o meu).

FONTE:Expresso

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publicado por citando às 12:37
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